02/10/2019 às 08h28min - Atualizada em 02/10/2019 às 08h28min

E FORAM FELIZES PARA SEMPRE! (SÓ QUE NÃO!)

Glícia Moura - Portal Gurguéia

Dia desses uma colega de trabalho me pediu para tirar-lhe uma dúvida sobre uma obra que ela estava lendo. Tratava-se do livro A psicanálise dos contos de fadas, do psicanalista Bruno Bettelhein. Expliquei a ela que era justamente sobre o que eu começava a escrever.

Atualmente, uma das causas a que também atribuo o nosso sofrimento infelizmente, se chama “CONTO DE FADAS”, pois crescemos lendo “estórias” (a infância é nossa principal fase de formação da personalidade), recebemos muitas informações apresentadas pela Disney, além da Barbie e toda tradição ficcional que fomentam o típico final: “E FORAM FELIZES PARA SEMPRE”. Será que é realmente isso que acontece? As meninas crescem acreditando que a vida de princesa é aquela, bonita, educada, sem problemas, com pássaros pousando nos ombros ao entardecer, projetando aquele príncipe ideal, vida perfeita, casamento ideal, filhos maravilhosos... Será realmente assim?

            Para os meninos, crescem ouvindo que precisam ser fortes, corajosos, educados, gentis não podem chorar, ou expressar suas dores, no entanto, está comprovado biologicamente que chorar alivia as dores. Sendo assim, por que associamos este ato à fraqueza?!!! É por questões como essa que os índices de suicídio têm aumentado entre homens. Mulheres tentam mais, homens têm mais sucesso; homens morrem mais por doenças que podem ser evitadas, basta procurar ajuda.

            Para completar, na adolescência e vida adulta fortalecemos essas crenças que em nós estão arraigadas através das novelas, interessante que na semana final de novela, a audiência sobe. Por que será? Porque queremos ver pessoas más sofrendo e os bonzinhos casando, tendo filhos, os sofredores finalmente realizando seus desejos, sendo MAIS UMA VEZ FELIZES PARA SEMPRE.

            Nessa conjuntura, acabamos esquecendo que com isso estamos tornando nossas relações líquidas, como defende Zygmunt Bauman, porque tais crenças geram altas expectativas na humanidade. Queremos realizar nossos desejos e que nossas expectativas se cumpram, no entanto, as expectativas são NOSSAS, e não há como alguém realizar algo que é nosso.

            Relacionamentos são construídos, existem muitos desafios, frustrações, decepções, estas infelizmente não são causadas pelo outro, mas na maioria dos casos, pela ideia que nós fazemos do outro: pais ideais, filhos ideais, namorados/ maridos perfeitos, trabalhos ideais, profissões ideias... NÃO EXISTEM.

            Temos que aprender a desenvolver a nossa RESILIÊNCIA, nossa capacidade de recomeçar, de reconstruir nossas relações; até mesmo porque, dependendo da relação não temos como trocar de pai, de mãe, de filho... e se tal troca se consumar, seja ela a trocar de esposa, marido e emprego, saiba que toda escolha gera uma renúncia, tudo acarreta uma questão positiva e negativa. Então temos que ser inteligentes.

            Ademais, o ser humano, na maioria das vezes é recíproco, ou seja, ele dá o que recebe. Então cabe uma indagação: Você está contente com o que está recebendo? Caso não, o que pode fazer para mudar essa situação?
                            
PS. Não sou contra contos de fadas, novelas, etc.; para cada idade de desenvolvimento do ser humano são orientadas certas leituras, este texto faz uma reflexão e elenca algumas questões para nós adultos, que na maioria das vezes não refletimos sobre tais temas, queremos orientar nossa vida e nossos relacionamentos através dessas crenças ficcionais que devem ser ressignificadas, reinterpretadas, reelaboradas de acordo com as situações vivenciadas.

Glicia Moura- Psicóloga, Especialista em saúde mental, mãe, esposa, amiga, filha, irmã, estudante, apaixonada pelo estudo do comportamento humano, “Bombril”, mil e uma utilidades...

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