GILBUÉS

Início da história do garimpo de diamantes em Gilbués
"A sorte sorriu para todos, de agregados a latifundiários."




Foto/Reprodução G1 (Imagem ilustrativa)

Num dia incerto do mês de maio de 1946 em que Tertuliano Lustosa pegaria o primeiro diamante do garimpo surgido nas terras de sua propriedade Goianinha, às margens do riacho do Bom Jardim, Cavouqueiro e o irmão Raimundo acompanhavam o pai, Teodoro Oliveira, numa riosca  empreitada pelo tio Dedé Tavares para roçar as capoeiras de João José Neres. Dedé era irmão da mãe de Cavouqueiro, carinhosamente chamada de mãe Xandó pelos netos e filhos. “A roça de João Neres era um mundo de carrapicho, só faltou nos matar. Naquela época eu estava com o nome de bom de enxada e não havia riosca que eu não estivesse dentro, os braços não aguentavam mais. Depois observei que aquilo não era nome de gente, me matando, e eu querendo ser bom mesmo para garantir o nome. Dei adeus à enxada graças ao diamante”, revela Cavouqueiro.
         

De forma acidental Terto Lustosa descobriu o primeiro diamante na Goianinha, pois ele não estava a sua procura e, embora não se dedicasse com exclusividade à atividade garimpeira após a descoberta, dela não se afastou por completo. Fazendeiro, criava bom rebanho de gado pé-duro e algumas cabeças de raça “compradas de Cobiniano ou de Pedro Duailibe, pois o gado raçado era pouco naquele tempo”, conta Cavouqueiro. Agricultor, plantava arroz, feijão, milho, mandioca e cana-de-açúcar, principais produtos da agricultura daquela época, além do capim para o gado.
          

A atração exercida pelo diamante era irresistível, sendo poucos os que não deixaram levar pelo seu brilho. Numa região de majoritário predomínio de lavradores envolvidos com a mera agricultura de subsistência, a descoberta das minas de diamante teve efeitos bombásticos sobre todos. Afinal, os valores pagos por aquelas pedras minúsculas e de brilho fascinante estavam infinitamente acima daqueles recebidos por um dia de roça no cabo da enxada ou por empreita de mês ou mais tempo. A sorte sorriu para todos, de agregados a latifundiários.
          

Dono de extensos hectares de terras, foi exatamente quando carregava madeira em um carro-de-boi para cercá-las, que Terto Lustosa encontrou o diamante inaugural do garimpo que se instalaria em Gilbués. No momento em que os bois saíram da trilha aberta no tabuleiro, uma das rodas do carro roçou a base de um pequeno morro, aparentemente formado de barro sem nenhum valor, como muitos outros localizados abaixo da casa da fazenda. Aquele monte de barro comum, entretanto, possuía como recheio o mais puro cascalho, sinal evidente da existência de diamante, como se comprovaria nos anos seguintes. Do choque da rodeira do carro-de-boi com a base do morro, rolou uma pedra brilhosa que se destacava em meio ao pedregulho desmoronado aos poucos. Terto Lustosa espantou-se com o brilho diferente daquela pedra. Curioso, recolheu-a cuidadosamente com a mão, tirou o lenço que levava no bolso da calça, fez um nó e, finalmente, guardou-a apertada na algibeira. “Êia boi”, gritou alto para apressar o passo lento do carro-de-boi, ansioso para chegar em  casa e mostrar a novidade a dona Francina, sua esposa.
          

Sem saber, ele acabara de recolher o primeiro de outros milhares de diamantes surgidos nas próximas décadas, cujo brilho enlouquecedor sairia dos limites físicos da pedra, atrairia o brilho de inumeráveis olhares de homens e mulheres e revolucionaria o destino da vizinha Cagaiteiras, mais tarde chamada de Pau d`Óleo, do futuro Boqueirão e do já existente e minúsculo Gilbués de 1946.

 
Texto extraído do livro Cavouqueiro, de autoria do jornalista Pedro Paulo Tavares de Oliveira.

 
Foto: Marlos Pereira   



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